Escutar para cuidar: o papel da Igreja diante dos sofrimentos do nosso tempo
08 de setembro de 2026, tera
A escuta ganhou particular destaque no caminho recente da Igreja. No processo sinodal convocado pelo Papa Francisco, ela é apresentada como uma dimensão essencial da vida eclesial, da formação e do acompanhamento pastoral.
O Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, realizado em 2024, chega a indicar a possibilidade de um ministério dedicado à escuta e ao acompanhamento, voltado especialmente a pessoas afastadas ou que buscam reaproximar-se da comunidade.
Ao apresentar o itinerário sinodal, em 2021, o Papa Francisco definiu o percurso como um “dinamismo de escuta recíproca”, lembrando que ouvir é o primeiro compromisso e que não se trata apenas de recolher opiniões, mas de escutar o Espírito.
A mesma perspectiva está presente no pontificado de Leão XIV. Em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, publicada em 25 de maio de 2026 e dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, o Papa recorda a responsabilidade de construir uma sociedade na qual a dignidade de cada pessoa seja protegida e destaca o diálogo como parte da vocação da Igreja.
Na apresentação do documento, fez um convite a “aprender a ouvir uns aos outros, a enfrentar com coragem os desafios do presente e a cooperar na construção de uma sociedade mais humana e fraterna”.
A Igreja como primeira rede de apoio
Há um esgotamento que não vem do trabalho. Vem da saturação. Da avalanche de estímulos e do desamparo de se estar ao alcance de tudo, o tempo todo, mas nunca por inteiro. É o retrato do tempo presente, em que o ser humano nunca esteve tão conectado e, ao mesmo tempo, tão só.Nas paróquias, esse cansaço tem chegado com nome, rosto e horário marcado. São pessoas que não procuram conselhos prontos nem milagres. O que buscam, muitas vezes, é algo mais simples e mais raro: alguém que as olhe nos olhos, sem pressa, e simplesmente as escute.
O Cônego Ramon Ferreira, pároco da Paróquia Sant’Ana, em Silvianópolis (MG), e especialista em psicanálise, explica que é comum que pessoas em sofrimento de ordem espiritual, psíquica e até civil procurem a Igreja como primeiro apoio. “O padre entra em momentos nos quais talvez nenhum outro profissional entre. Está presente no casamento, no nascimento dos filhos, nas crises familiares, na doença, numa perda, num velório. Muitas vezes conhece várias gerações da mesma família”, diz. “Além disso, existe uma dimensão muito particular no ministério sacerdotal: a pessoa sabe que pode falar de coisas muito íntimas, sobretudo no âmbito sacramental, onde existe o sigilo absoluto”, complementa.
Segundo ele, essa confiança exige responsabilidade para reconhecer os limites e saber até quando o acompanhamento espiritual é suficiente e a partir de que momento se faz necessário o cuidado de um profissional. Direção espiritual, psicoterapia e psiquiatria são realidades distintas que podem e devem conversar, mas não podem ser confundidas. “Considero muito perigoso quando alguém transforma tudo em problema espiritual. Uma depressão não é falta de fé. Uma crise de ansiedade não significa que a pessoa reza pouco. Isso pode inclusive aumentar a culpa de quem já está sofrendo”, alerta o cônego. “A fé pode ser uma enorme força no processo de recuperação, mas ela não nos autoriza a negar a realidade. Se eu quebro uma perna, eu rezo e vou ao ortopedista. Uma coisa não elimina a outra”.
Essa perspectiva reforça a importância de olhar para o ser humano em sua integralidade, sem dividi-lo em gavetas. Corpo, psiquism e espiritualidade estão interligados e, quando uma dessas dimensões sofre, as outras também sentem.
Nessa compreensão, fé e ciência não se colocam como rivais, mas como olhares distintos que se complementam no cuidado da mesma pessoa. Como destaca o cônego, “a graça não destrói a natureza; trabalha nela. Deus pode agir através de uma oração, mas pode agir também através de uma psicóloga competente, de um psiquiatra, de um medicamento bem indicado. Quando cada uma respeita seus limites, elas não concorrem. Elas se completam”.
Pastoral da Escuta: quando ouvir se torna uma missão
Foi diante das muitas demandas que chegam diariamente às paróquias, que nasceu a Pastoral da Escuta. Idealizada pelo padre passionista José Carlos Pereira, teólogo pastoralista e doutor em Sociologia, a iniciativa partiu da percepção de que o atendimento sacerdotal já não dava conta da procura e de que boa parte de quem chegava não buscava confissão, mas alguém que a ouvisse.“Surgiu de uma necessidade que constatei lá pelos idos de 2006, 2007, quando fui pároco de uma grande paróquia no interior de São Paulo. Havia uma demanda gigantesca. Éramos três padres, mas não conseguíamos atender todas as pessoas. Todos os dias, das oito da manhã às cinco da tarde, sempre tinha um padre de plantão. No entanto, a maioria não procurava a confissão. Começamos a perceber que boa parte queria apenas alguém que as escutasse, porque não tinha quem as ouvisse”, recorda.A percepção deu origem a uma equipe de leigos preparada para oferecer escuta pastoral. O que começou como resposta a uma necessidade concreta de uma paróquia tornou-se uma experiência partilhada com outras comunidades e dioceses. O primeiro grupo tinha cinco pessoas, com plantões na igreja matriz e em duas capelas, em horários fixos.“Começamos a divulgar que havia esse serviço e começou a dar certo. As pessoas procuravam para desabafar”, lembra o padre. Segundo ele, muitas vezes nem era preciso dizer nada: “No final diziam: ‘muito obrigado por você ter me ouvido’”.Quando se tratava de matéria de confissão, o encaminhamento era feito ao sacerdote. A prática, que deu resultado na paróquia, acabou sistematizada no livro Pastoral da Escuta, para que outras comunidades pudessem implantar a proposta.
O sacerdote esclarece que não é necessário ter formação em psicologia para atuar. E, mesmo quando há psicólogos entre os agentes, a abordagem permanece distinta. “Deixamos muito claro que não se trata de escuta no âmbito psicológico nem no âmbito sacramental. Se tiver psicólogo, é muito válido, mas ali ele não vai usar ferramentas da psicologia. É uma escuta espiritual, no Espírito, teológica”, ressalta. “Muitas pessoas podem imaginar que é um trabalho marginal da psicologia, e não é”.
Na Diocese de Taubaté (SP), a psicóloga Raquel Irene de Macedo coordena a Pastoral da Escuta no Santuário Santa Teresinha. Mestra em Ciências pela USP e especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica, ela destaca que o serviço nasceu para oferecer acolhimento e escuta ativa, em atendimentos individuais, sigilosos e por busca espontânea, realizados em salas da igreja, com horário e duração delimitados.“Muitas vezes, a pessoa não precisa de uma resposta pronta ou de alguém que resolva o problema, mas de uma presença disponível, respeitosa e verdadeiramente interessada em escutá-la”, explica.Segundo Raquel, a preparação dos agentes é o pilar da pastoral. Além da boa vontade, é preciso preparo técnico, maturidade emocional e capacidade de se esvaziar para que o outro seja o centro. Os voluntários são formados para sustentar o silêncio sem julgar, aconselhar ou trazer a própria história, com formação humana e espiritual contínua, que inclui postura emocional, limites pastorais e técnicas de entrevista.
Para ela, a procura revela uma carência atual. “Muitas chegam trazendo situações difíceis, culpas, conflitos familiares, lutos ou ansiedades, sem encontrar um espaço onde possam falar sem julgamento. Vivemos em uma sociedade hiperconectada digitalmente, mas profundamente solitária”, observa. A coordenadora ressalta ainda o discernimento na escolha dos agentes. “O desejo de ajudar não se traduz automaticamente na aptidão para escutar. Quem chega querendo ser agente precisa, antes de tudo, ser cuidado. Outros trazem a ansiedade de dar conselhos e precisam aprender a arte do silêncio. O protagonista daquele momento nunca será o agente, mas a pessoa que fala à sua frente.”
O agente está ali para escutar e acolher, não para diagnosticar, tratar ou conduzir a vida da pessoa”, explica Raquel. Muitas vezes, a melhor intervenção é uma pergunta que ajude a pessoa a aprofundar o que vive. A própria escuta ativa permite identificar quando a demanda ultrapassa a proposta e exige encaminhamento.Em situações de crise ou risco, o cuidado é ainda maior. “Diante de sinais de ideação suicida, relatos de violência doméstica, surtos psicóticos ou depressão severa incapacitante, o agente é instruído a não conduzir sozinho. A postura é encaminhar para a rede intersetorial de cuidado e, em risco imediato, para os serviços de emergência”, orienta.
Implantada conforme as orientações do subsídio, a Pastoral da Escuta tem se mostrado uma resposta concreta que se soma aos demais serviços da Igreja. Ao lado da Pastoral da Acolhida, destaca-se hoje como uma das mais relevantes justamente por partir do princípio de que escuta é acolhimento. Em um contexto marcado por solidão e pelo aumento do sofrimento psíquico, o espaço da escuta olho no olho faz diferença. “Mais do que nunca isso é importante. As redes sociais não possibilitam aquela escuta olho no olho, de ser humano para ser humano. Mesmo que você tenha uma escuta a distância, nunca será igual a sentar ao lado de alguém que está ali para te ouvir, para te acolher, não para te julgar”, ressalta o padre José Carlos.
Esse chamado ganha ainda mais sentido em setembro, mês dedicado no Brasil à prevenção do suicídio. A Pastoral da Escuta reforça uma mudança de ênfase: menos respostas prontas e mais espaço para ouvir.
Gabi Bonvechio - Cidade do Vaticano
Fonte: Vatican News
https://www.vaticannews.va
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