Além da escravidão e do proveito a todo custo
18 de outubro de 2013, sexta
Não é tolerável o "escândalo da fome" em um mundo onde um terço da produção alimentar "é largada por causa das perdas e dos esbanjos cada vez maiores". A denúncia foi feita pelo papa Francisco, que em uma mensagem ao diretor geral da FAO, José Graziano da Silva, por ocasião da jornada mundial da alimentação, pediu uma mudança de mentalidade diante da tragédia "em que ainda vivem milhões de famintos e subalimentados, entre os quais muitíssimas crianças". Uma tragédia que, para o pontífice, não pode ser resolvida na lógica passageira da emergência, mas como "um problema que interpela a nossa consciência pessoal e social" e exige "uma solução justa e permanente".
Por isso, o bispo de Roma pede para se superar atitudes de indiferença ou de acomodação e de "derrubar com decisão as barreiras do individualismo, do fechamento sobre si mesmos, da escravidão do proveito a todo custo", para "reavaliar e renovar nossos costumes alimentares". Precisa ser derrubada, em particular, "a lógica do aproveitamento desenfreado da criação" – lê-se na mensagem lida pelo observador permanente da Santa Sé junto à FAO, o arcebispo Luigi Travaglino, durante a cerimônia na manhã dessa quarta-feira (16), na sede da Organização em Roma – por meio do "compromisso de cultivar e cuidar do ambiente e seus recursos, a fim de garantir a segurança alimentar e caminhar rumo a uma alimentação suficiente e sadia para todos".
Lembrando que "os nossos pais nos educavam ao valor daquilo que recebemos e que temos, considerado como dom precioso de Deus", o papa Francisco exorta todos a um sério exame de consciência “sobre a necessidade de modificar concretamente nossos estilos de vida” alimentares, marcados muitas vezes “pelo consumismo, desperdício e esbanjamento dos alimentos”. E volta a alertar contra as consequências da "cultura do desperdício", que sacrifica "homens e mulheres aos ídolos do lucro e do consumo" e da "globalização da indiferença", que "nos leva aos poucos à indiferença do outro, como fosse algo normal". O problema da fome, afinal, não é só econômico ou científico, mas também e, sobretudo, ético e antropológico. "Educarmo-nos à solidariedade – alerta o pontífice – significa educarmo-nos à humanidade” e se comprometer na construção de uma sociedade que tenha em "seu centro sempre a pessoa e a sua dignidade”.
L'Osservatore Romano, 17-10-2013.
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