Leão XIV e o Concílio Vaticano II
09 de fevereiro de 2026, segunda
Em diversas ocasiões, o Papa Francisco falou sobre o tempo necessário para a plena implementação de um Concílio. Na entrevista ao Semanário belga "Tertio", publicada em fevereiro de 2023, disse textualmente: "Os historiadores dizem que é preciso um século para que as decisões de um Concílio tenham pleno efeito e sejam implementadas. Ainda temos 40 anos pela frente.... Estou tão preocupado com o Concílio porque esse evento foi na verdade uma visita de Deus à sua Igreja (...). O Concílio...rejuvenesce a Igreja. A Igreja é uma mãe que sempre avança. O Concílio abriu a porta para uma maior maturidade, mais em sintonia com os sinais dos tempos".
Pouco mais de dois anos após esta afirmação, para suceder Francisco é eleito o Papa Leão XIV, que precisamente dentro deste espaço de tempo de "40 anos" que ainda resta para implementar as decisões do Concílio, deu início em 2026 ao ciclo de catequeses sobre os documentos do Concílio Vaticano II - aberto por João XXIII em 11 de outubro de 1962 e concluído por São Paulo VI em 8 de dezenbro de 1965. E este, é o tema da reflexão do Pe. Gerson Schmidt* desta semana:
"Nas Audiências Gerais de 2025, o novo Papa eleito no transcorrer da celebração do Ano Jubilar, deu continuidade ao que já estava proposto pelo seu antecessor, ou seja, refletir sobre o Ano da Esperança. Leão XIV dava continuidade ao que Papa Francisco deixou encaminhado com seu grande e carismático Pontificado. Neste ano, na primeira audiência de 06 de janeiro de 2026, Papa Leão surpreendeu em propor sua identidade na temática das Audiências Gerais de quartas-feiras, na Praça São Pedro. O Papa quer resgatar o Concílio Vaticano II, grande riqueza e tesouro da Igreja, que segundo os Papas anteriores, é uma bússola para orientar os caminhos novos da Igreja do Terceiro Milênio. Nas catequeses de janeiro, propôs a reflexão a partir da Constituição Dogmática Dei Verbum. A escolha dos temas, que cabe tão somente ao Papa, agora vem recheado com um cunho pessoal de Leão XIV, marcando seu Pontificado com a valorização da volta às fontes, como se propuseram também os padres conciliares, sem deixar de buscar abrir a Igreja para os novos e surpreendentes desafios na atualidade.
O Sumo Pontífice, Papa Leão, lembrou Bento XVI na Primeira mensagem no final da Missa com os Cardeais eleitores, 20 de abril de 2005, que disse assim: “Com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam atualidade; os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas instâncias da Igreja e da atual sociedade globalizada”. Num mundo global e interplanetário, vivendo uma verdadeira rede interligado, profetizava Bento XVI a importância do resgate dos ensinamentos conciliares que não perderam a atualidade. E ainda dizia Leão XIV assim na primeira audiência de 2026: “Quando o Papa São João XXIII inaugurou a assembleia conciliar, em 11 de outubro de 1962, falou dele como da aurora de um dia de luz para toda a Igreja. O trabalho dos numerosos Padres convocados, provenientes das Igrejas de todos os continentes, abriu efetivamente o caminho para uma nova era eclesial. Depois de uma rica reflexão bíblica, teológica e litúrgica, que atravessou o século XX, o Concílio Vaticano II redescobriu o rosto de Deus como Pai que, em Cristo, nos chama a ser seus filhos; olhou para a Igreja à luz de Cristo, luz das nações, como mistério de comunhão e sacramento de unidade entre Deus e o seu povo; iniciou uma importante reforma litúrgica, colocando no centro o mistério da salvação e a participação ativa e consciente de todo o Povo de Deus. Ao mesmo tempo, ajudou-nos a abrir-nos ao mundo e a enfrentar as mudanças e os desafios da época moderna no diálogo e na corresponsabilidade, como uma Igreja que deseja abrir os braços à humanidade, fazendo ressoar as esperanças e as angústias dos povos e colaborando na construção de uma sociedade mais justa e fraterna”. Cada palavra do Papa nessa primeira audiência desse ano é importante e traz um documento conciliar por detrás do que afirmou. O Concílio trouxe uma renovação teológica para aproximarmos do Eterno na visão de um rosto paterno e misericordioso do Pai, não mais de um juiz severo e intransigente, capaz de condenar a todos. Por isso, o resgate de toda a Teologia da Revelação na Constituição Dogmática Dei Verbum, que fala da Palavra de Deus, valorizando a Sagrada Escritura, como fonte de inspiração para toda a ação eclesial. Na audiência de 21 de janeiro, na Sala Paulo VI, repleta de fiéis, o Pontífice recordou que Deus não se revela por meio de ideias abstratas, mas em um verdadeiro “diálogo de aliança”, no qual se dirige à humanidade como a amigos. Trata-se, explicou o Papa, de um conhecimento que não se limita à comunicação de conteúdos, mas que “partilha uma história e nos chama à comunhão mútua”.
O Concílio Vaticano II olhou para a Igreja à luz de Cristo, luz das nações, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, que aponta aIgreja como mistério de comunhão e sacramento de unidade entre Deus e o seu povo. O Concílio Vaticano II iniciou uma profunda reforma litúrgica, colocando no centro o mistério da salvação e a participação ativa e consciente de todo o Povo de Deus, que é retratado na Constituição Sacrossanctum Concilium. Finalmente, o Papa lembra a Gaudium et Spes, que traduz a missão da Igreja no mundo, diante das mudanças e os desafios da época moderna no diálogo e na corresponsabilidade, buscando uma Igreja que deseja abrir os braços à humanidade, fazendo ressoar as esperanças e as angústias dos povos e colaborando na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
”Graças ao Concílio Vaticano II, «a Igreja torna-se palavra; a Igreja faz-se mensagem; a Igreja torna-se diálogo» (São Paulo VI, Carta enc. Ecclesiam suam, 67), comprometendo-se a procurar a verdade através do caminho do ecumenismo, do diálogo inter-religioso e do diálogo com as pessoas de boa vontade”. Há, pois, que se zelar por uma renovação do Espírito Eclesial. “Este espírito, esta atitude interior, deve caracterizar a nossa vida espiritual e a ação pastoral da Igreja, porque ainda devemos realizar mais plenamente a reforma eclesial em chave ministerial e, diante dos desafios atuais, somos chamados a permanecer atentos intérpretes dos sinais dos tempos, alegres anunciadores do Evangelho, corajosas testemunhas de justiça e paz”, disse o Papa".
por Jackson Erpen - Cidade do Vaticano
*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
Fonte: Vatican News
https://www.vaticannews.va
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