• 1 A vida do homem sobre a terra é uma luta, seus dias são como os dias de um mercenário.
  • 2 Como um escravo que suspira pela sombra, e o assalariado que espera seu soldo,
  • 3 assim também eu tive por sorte meses de sofrimento, e noites de dor me couberam por partilha.
  • 4 Apenas me deito, digo: Quando chegará o dia? Logo que me levanto: Quando chegará a noite? E até a noite me farto de angústias.
  • 5 Minha carne se cobre de podridão e de imundície, minha pele racha e supura.
  • 6 Meus dias passam mais depressa do que a lançadeira, e se desvanecem sem deixar esperança.
  • 7 Lembra-te de que minha vida nada mais é do que um sopro, de que meus olhos não mais verão a felicidade;
  • 8 o olho que me via não mais me verá, o teu me procurará, e já não existirei.
  • 9 A nuvem se dissipa e passa: assim, quem desce à região dos mortos não subirá de novo;
  • 10 não voltará mais à sua casa, sua morada não mais o reconhecerá.
  • 11 E por isso não reprimirei minha língua, falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na tristeza de minha alma:
  • 12 Porventura, sou eu o mar ou um monstro marinho, para me teres posto um guarda contra mim?
  • 13 Se eu disser: Consolar-me-á o meu leito, e a minha cama me aliviará,
  • 14 tu me aterrarás com sonhos, e me horrorizarás com visões.
  • 15 Preferiria ser estrangulado; antes a morte do que meus tormentos!
  • 16 Sucumbo, deixo de viver para sempre; deixa-me; pois meus dias são apenas um sopro.
  • 17 O que é um homem para fazeres tanto caso dele, para te dignares ocupar-te dele,
  • 18 para visitá-lo todas as manhãs, e prová-lo a cada instante?
  • 19 Quando cessarás de olhar para mim, e deixarás que eu engula minha saliva?
  • 20 Se pequei, que mal te fiz, ó guarda dos homens? Por que me tomas por alvo, e me tornei pesado a ti?
  • 21 Por que não toleras meu pecado e não apagas minha culpa? Eis que vou logo me deitar por terra; tu me procurarás, e já não existirei.
  • 1 Depois disso, Jesus percorria a Galiléia. Ele não queria deter-se na Judéia, porque os judeus procuravam tirar-lhe a vida.
  • 2 Aproximava-se a festa dos judeus chamada dos Tabernáculos.
  • 3 Seus irmãos disseram-lhe: Parte daqui e vai para a Judéia, a fim de que também os teus discípulos vejam as obras que fazes.
  • 4 Pois quem deseja ser conhecido em público não faz coisa alguma ocultamente. Já que fazes essas obras, revela-te ao mundo.
  • 5 Com efeito, nem mesmo os seus irmãos acreditavam nele.
  • 6 Disse-lhes Jesus: O meu tempo ainda não chegou, mas para vós a hora é sempre favorável.
  • 7 O mundo não vos pode odiar, mas odeia-me, porque eu testemunho contra ele que as suas obras são más.
  • 8 Subi vós para a festa. Quanto a mim, eu não irei, porque ainda não chegou o meu tempo.
  • 9 Dito isto, permaneceu na Galiléia.
  • 10 Mas quando os seus irmãos tinham subido, então subiu também ele à festa, não em público, mas despercebidamente.
  • 11 Buscavam-no os judeus durante a festa e perguntavam: Onde está ele?
  • 12 E na multidão só se discutia a respeito dele. Uns diziam: É homem de bem. Outros, porém, diziam: Não é; ele seduz o povo.
  • 13 Ninguém, contudo, ousava falar dele livremente com medo dos judeus.
  • 14 Lá pelo meio da festa, Jesus subiu ao templo e pôs-se a ensinar.
  • 15 Os judeus se admiravam e diziam: Este homem não fez estudos. Donde lhe vem, pois, este conhecimento das Escrituras?
  • 16 Respondeu-lhes Jesus: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou.
  • 17 Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se a minha doutrina é de Deus ou se falo de mim mesmo.
  • 18 Quem fala por própria autoridade busca a própria glória, mas quem procura a glória de quem o enviou é digno de fé e nele não há impostura alguma.
  • 19 Acaso não foi Moisés quem vos deu a lei? No entanto, ninguém de vós cumpre a lei!...
  • 20 Por que procurais tirar-me a vida? Respondeu o povo: Tens um demônio! Quem procura tirar-te a vida?
  • 21 Replicou Jesus: Fiz uma só obra, e todos vós vos maravilhais!
  • 22 Moisés vos deu a circuncisão (se bem que ela não é de Moisés, mas dos patriarcas), e até no sábado circuncidais um homem!
  • 23 Se um homem recebe a circuncisão em dia de sábado, e isso sem violar a Lei de Moisés, por que vos indignais comigo, que tenho curado um homem em todo o seu corpo em dia de sábado?
  • 24 Não julgueis pela aparência, mas julgai conforme a justiça.
  • 25 Algumas das pessoas de Jerusalém diziam: Não é este aquele a quem procuram tirar a vida?
  • 26 Todavia, ei-lo que fala em público e não lhe dizem coisa alguma. Porventura reconheceram de fato as autoridades que ele é o Cristo?
  • 27 Mas este nós sabemos de onde vem. Do Cristo, porém, quando vier, ninguém saberá de onde seja.
  • 28 Enquanto ensinava no templo, Jesus exclamou: Ah! Vós me conheceis e sabeis de onde eu sou!... Entretanto, não vim de mim mesmo, mas é verdadeiro aquele que me enviou, e vós não o conheceis.
  • 29 Eu o conheço, porque venho dele e ele me enviou.
  • 30 Procuraram prendê-lo, mas ninguém lhe deitou as mãos, porque ainda não era chegada a sua hora.
  • 31 Muitos do povo, porém, creram nele e perguntavam: Quando vier o Cristo, fará mais milagres do que este faz?
  • 32 Os fariseus ouviram esse murmúrio que circulava entre o povo a respeito de Jesus. Então, de acordo com eles, os príncipes dos sacerdotes enviaram guardas para prendê-lo.
  • 33 Disse Jesus: Ainda por um pouco de tempo estou convosco e então vou para aquele que me enviou.
  • 34 Buscar-me-eis sem me achar, nem podereis ir para onde estou.
  • 35 Os judeus perguntavam entre si: Para onde irá ele, que o não possamos achar? Porventura irá para o meio dos judeus dispersos entre os gregos, para tornar-se o doutor dos estrangeiros?
  • 36 Que significam essas palavras que nos disse: Buscar-me-eis sem me achar, e onde estou para lá não podereis ir?
  • 37 No último dia, que é o principal dia de festa, estava Jesus de pé e clamava: Se alguém tiver sede, venha a mim e beba.
  • 38 Quem crê em mim, como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios de água viva (Zc 14,8; Is 58,11).
  • 39 Dizia isso, referindo-se ao Espírito que haviam de receber os que cressem nele, pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado.
  • 40 Ouvindo essas palavras, alguns daquela multidão diziam: Este é realmente o profeta.
  • 41 Outros diziam: Este é o Cristo. Mas outros protestavam: É acaso da Galiléia que há de vir o Cristo?
  • 42 Não diz a Escritura: O Cristo há de vir da família de Davi, e da aldeia de Belém, onde vivia Davi?
  • 43 Houve por isso divisão entre o povo por causa dele.
  • 44 Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém lhe lançou as mãos.
  • 45 Voltaram os guardas para junto dos príncipes dos sacerdotes e fariseus, que lhes perguntaram: Por que não o trouxestes?
  • 46 Os guardas responderam: Jamais homem algum falou como este homem!...
  • 47 Replicaram os fariseus: Porventura também vós fostes seduzidos?
  • 48 Há, acaso, alguém dentre as autoridades ou fariseus que acreditou nele?
  • 49 Este poviléu que não conhece a lei é amaldiçoado!...
  • 50 Replicou-lhes Nicodemos, um deles, o mesmo que de noite o fora procurar:
  • 51 Condena acaso a nossa lei algum homem, antes de o ouvir e conhecer o que ele faz?
  • 52 Responderam-lhe: Porventura és também tu galileu? Informa-te bem e verás que da Galiléia não saiu profeta.
  • 53 E voltaram, cada um para sua casa.